03.11.12
⇨ Subaquática
Ele perguntava – estás triste? Não. Porque não era um estado, nem mesmo um ser, mas o ser. Ela nem era triste, era tristeza, em si, personificada.
(Source: misstreat)
Ele perguntava – estás triste? Não. Porque não era um estado, nem mesmo um ser, mas o ser. Ela nem era triste, era tristeza, em si, personificada.
(Source: misstreat)
Nunca precisei de uma dessas, sempre me dei bem com rompimentos interpessoais, “amorosos” ou não. É mais fácil praticar o desapego quando preferimos não correr o risco de se apegar. E eu não corria esse risco nunca.
Então sentei-me à sua frente, todas as vezes, e larguei no chão “não dá mais, não quero, estou em outra, acabou”. Às vezes nem isso. Uma frieza que não me é comum, definitivamente. Rápido e indolor. É incrivelmente fácil desapegar quando não se tem apego nenhum.
Nunca precisei de uma dessas e espero nunca precisar — mas dessa vez por outros motivos.
Que eu sei que você chora escondida no escuro ou debaixo do chuveiro, para que a água leve tudo embora, para que a água te leve embora, para onde você desconhece, mas onde você não precisaria mais ser você. Eu sei que todas as vezes em que você me pergunta “por que você gosta de mim?” ou “você me acha bonita?”, são tentativas de esboçar um sorriso e que você só quer ser mimada — eu sei que você sabe as respostas de cor. Eu sei diferenciar os seus gemidos durante o sono, sei quando Morfeu ou Ícelo te visitam, assim como sei espantá-los quando necessário, para que você se sinta segura de novo, em meus braços. Espero que você saiba que quando olho pro seu rosto e me perco em seus traços, estou na verdade pedindo ajuda, implorando-te para que me resgate, me pegue pela mão e não me deixe perdido. E espero que você saiba que, nesse momento, você não deve me salvar de absolutamente nada.
Eu sei que quando estás correndo os olhos pelo meu quarto e, por acaso, encontra algo que não te pertence, e tampouco me pertence, você procura na verdade pela chance de controlar cada pedaço de mim em que você não esteve — e é doentio, mas sei que não é sua culpa e que você não sabe controlar muito bem seus instintos, seus medos, suas dores e você luta tanto contra eles — e espero que você saiba que aprender a controlá-los para você é o que eu mais quero. Eu sei seus horários melhor que você — o que, admito, não é muito difícil, porque sei também o quanto você simplesmente não se preocupa com eles. Eu sei, portanto, que você se esforça para acordar às terças e quintas, sempre sai correndo às sextas e mal acorda nos outros dias. Eu sei o quanto você gostaria de viver rodeada de gatos, arte, música, cores, livros, crianças e amor. Eu sei que você sente cócegas no joelho e tem uma pinta no pé esquerdo, que coincidentemente é igual à minha pinta no pé esquerdo. Eu sei que você tem medo de extraterrestres e dinossauros, mas desafia ladrões no transporte público. Eu sei que teve um cachorrinho quando pequena, e que por mais que sua cabeça te diga que foram dois, você não acredita nela — porque esse é seu conceito errôneo de amadurecimento: ignorar a imaginação. Eu sei que você sofreu e passou por coisas que só você conhece e me pergunto se quero mesmo descobrí-las — embora queira ainda mais fazer parte da sua vida, talvez serei eu a não controlar meus instintos. Eu sei que não sou o suficiente para você, embora você me diga o contrário: eu nunca vou acreditar que exista alguém no mundo que seja suficientemente bom para você — e agora eu entendo o que você quer dizer quando sussurra que gostaria de ser uma pessoa melhor para mim, embora eu te diga e tenha certeza absoluta que não encontrarei alguém melhor do que você. Eu sei que você discorda veementemente de mim quanto a isso.
Eu sei que você daria tudo para ter me conhecido há seis anos — quando eu te conheci — para evitar toda a dor, ainda que você acredite com propriedade que as coisas acontecem como e quando devem acontecer; quem nos garante que hoje seria tão bom se o hoje começasse em um tempo que já se fora? Eu sei que você não acredita em pessoas eternas e que não acredita em nada eterno, na verdade, porque tudo esgotou-se tão rápido para você, seus sonhos se esvaíram a dois passos de ti, seu amor pelas coisas foi morto por cada um que cruzara teu caminho, mas sei que, por algum motivo que você ainda não entendeu muito bem, você acredita em mim. Eu sei que, pela primeira vez na sua vida — e você achava que isso não existia —, você olhou para mim e pensou que fosse amor à primeira vista; o que você não sabe é que durante todos esses anos estivemos juntos em algum lugar e foi tudo tão intenso que nem tenho certeza se realmente sei disso. Eu te velava todas as noites e fazia carinho nas suas costas para que dormisse em meio às lagrimas, e por mais distante que meu corpo estivesse, eu sei que era aquele o meu lugar. Eu sei que você não se sente confortável entre as pessoas que te trazem lembranças de coisas que você não viveu, mas você não sabe que esteve presente em cada um dos momentos que compartilhei com cada uma delas — porque eles sabiam de tudo também. Eu sei que você tem medo de que isso acabe como antes porque pra você é tudo tão efêmero e frio, as coisas vêm e vão sem se preocuparem com as feridas que abriram pelo caminho; desde então, você se tornou tão eficiente em primeiros socorros. Eu sei que você odeia o meu passado pelo simples fato de não ter participado dele e eu sei que você apagou o seu pelo simples fato de ter participado dele. Eu sei que tudo isso te confunde, porque você tem tanto medo de abrir a porta e sair de casa, mas não tem medo de olhar diretamente para o Sol, principalmente quando eu te digo para não fazê-lo. Eu sei que você me olha enquanto durmo e às vezes chora de felicidade porque nunca sentiu tanta paz em meio a essa guerra que acontece dentro de você; e isso te inspira a cada dia, isso te dá forças para continuar andando, não correndo — eu quero te mostrar que ainda temos muito tempo para caminharmos juntos. Eu sei que sua paciência e força para tal são mínimas, mas sei também que você só precisa de alguém que te dê a mão e te mostre o caminho. Eu sei que você preferiria viver em um mundo paralelo no qual você é forte, linda e não se cansa nunca de sorrir, onde você pode conviver com palavras bonitas e música todos os dias e tem infinitas qualidades, mas eu gostaria que você soubesse que esse mundo é aqui, agora e comigo.
Estava atrasada, como sempre. Não tem um compromisso para o qual eu não me atrase, pela falta de comprometimento com compromissos em geral. Não sei se me atraso por não me importar minimamente ou para mostrar ao mundo o quanto eu minimamente me importo – e isso é algo com o que eu realmente me importo. Independentemente da resposta, não estava funcionando.
(Estamos vivendo o imediatismo de uma geração desesperada, apressada e sem definição de futuro, o que nos prevê somente um borrão irresoluto e escuro pelos próximos anos. Você sabe que isso não vai mudar para você, mas finge que espera que mude para alguém – apesar da espera não compensar pra quem não quer esperar.)
Quando saí, enfim, não foi a passos largos e ofegantes, mas vagarosos, aproveitando os últimos instantes de paz antes de estabelecer interações sociais premeditadas e constrangedoras. Tinha minha música e meu livro, não precisava de mais nada, mas sentia falta de alguma coisa – a gente sempre sente falta de alguma coisa. É a tal da cavidade logo abaixo do osso esterno que assovia sozinha quando corremos contra o vento. A minha não sabe assoviar, talvez porque eu não goste de correr.
(Eu não gosto dessa ideia de ter que reviver certas coisas só porque, por ventura, elas foram revividas – não por mim, claro. Isso é tão grave que resulta numa deformação do espaço-tempo da qual nada, nem mesmo objetos que se movam na velocidade da luz, podem escapar: o buraco-negro das relações com fantasmas do passado – já esse nome foi dado por mim, claro.)
São longas e longas horas prolongando uma situação claramente desconfortável como tentativa de evitar uma situação claramente desconfortável. Sempre me impressiono com a nossa capacidade de complicar as coisas. E se tudo está bem quando acaba bem, o saldo é positivo; mas se os fins justificam os meios, eu não me justifiquei com ninguém e ninguém se justificou comigo. É melhor passar pelo constrangimento em tentar do que pela vergonha de não querer tentar – como se fôssemos obrigados a sermos felizes.
Não sei quem inventou essa ladainha.
Às vezes a gente se acostuma.
A não ter tudo que quer, a não enxergar o horizonte, a nunca ver as estrelas, a levar esbarrões no ônibus, a chorar escondido, a esquecer as chaves em cima da mesa, a cochilar no transporte público, a perder canetas, pen drives, amores; a gente se acostuma a ficar cansado, a respirar com dificuldade, a gripar no inverno, a desmaiar no verão, a não terminar provas, a perguntas sem respostas, a respostas sem sentido, a fazer tudo corrido, a correr sem direção; e ainda nos acostumamos a tomar chuva, a sentir frio, a passar o dia com as meias molhadas, a contar os minutos para as dezoito horas, a sentir tédio, a suspirar bem fundo, a estalar o pescoço, a alongar as costas, a tomar mais café do que deveria, a xingar o computador e sua tralha periférica; a gente se acostuma a tanta coisa e se acostuma a se acostumar que nada mais nos surpreende; nem mesmo o fator surpresa antagonista do nosso cotidiano nos acolhe, cada coisa se transforma em matéria-prima para reações apáticas e insípidas e a vida se transforma em um arrastar de pés com pantufas de pelúcia num chão de taco de madeira.
Na escola aprendemos as leis de Newton: a inércia, a dinâmica, a ação e reação. E embora sejam chamados de ciências exatas, os cálculos são muito mais abstratos quando postos numa folha de papel do que quando agem disformes sobre nossas vidas. A gente estuda, decora, aprende, reproduz todas as letras e números nas provas, mas ainda se pergunta o motivo de tudo isso. “Bolas de boliche sobre pistas infinitas”, “empurrar caminhões de brinquedo x caminhões de verdade” — quando? como? pra quê? E ainda que os nossos professores nos tivessem dito a verdade, esses resultados não nos servem a nada; sentimos a influência de todas essas leis e princípios apenas quando são invisíveis, quando não sabemos seus valores, quando nos acostumamos com o ruído de suas pantufas no chão de nossas casas.
Você tá na agência. Quarta-feira. Sozinha!
No final das contas, você stalkeia.
Olha a página inteirinha.
Dez minutos depois, tá com arritmia.
E com tremedeira.
Conclusão: você tá passando mal.
Você se ama? Não!
O quê que você é então?
BURRA, é burra!
How can I explain?
I need you here and not here too.
(Source: misstreat)
Eu me sinto tão ridiculamente feliz ao teu lado que acabo por me assemelhar às pessoas que eu tanto julgo - não apenas pelo que são, mas também pelo que representam. Alguém feliz, ao meu lado, se torna involuntariamente um personagem idealizado, irreal, porque eu carrego uma negatividade excessiva e caricata dentro de mim. Porém, com você eu venho experimentando toda a contradição em mim; eu com minhas qualidades e defeitos, acostumada a lidar unilateralmente comigo mesma, agora sou escalada à uma missão mais nobre e dignificante: jurar fidelidade, lealdade e amor a outra pessoa e se possível, a mim mesma. Sempre me perguntei se um dia eu seria capaz de amar havendo uma autoestima tão baixa; eu teria que me abrir, me entregar e permitir que cuidem de mim, sem parecer desesperada por uma salvação que já se perdera outrora.
Continue lendo ∞we are precisely suited.
(Source: youjustyou, via misstreat)
Fiquei dois meses sem escrever. O que aconteceu é simples: apesar das minhas preces para Março, ele foi bem sádico comigo. Já Abril, muito pelo contrário — talvez até pelo fato de começar com um dia cheio de inverdades geralmente inofensivas — me presenteou com coisas maravilhosas que sequer pareciam reais. E eu decidi que viveria o máximo dos prazeres que essa brincadeira me proporcionara, sem me censurar com dúvidas, medos e inseguranças; tanto que esses sintomas todos vieram se manifestar somente na despedida do mês. Entre o declínio e a rápida subida de volta àquilo que eu chamo de topo — impossível ir além —, consegui perceber coisas pequenas, detalhes aos quais nunca dei a devida importância, seja pela indiferença constante ou pela descrença total numa melhora do meu quadro clínico. Percebi que as pessoas têm uma influência maior do que deveriam sobre a minha vida. É aquela coisa, you let people in, and they destroy you. Percebi que justamente essas pessoas são aquelas que te causam maior dano; aquelas que vêm tocar a campainha num horário inoportuno, as que você deixa entrar por educação, mas se previne com uma vassoura atrás da porta. Apesar de parecerem solícitas e demonstrarem interesse em querer participar da sua vida, essas são as pessoas que não vão conseguir lidar com você, simplesmente por não terem a delicadeza de perceber o quanto são inconvenientes.
Mas aí o acaso vem e muda tudo. Entra sem ser chamado, sem ser convidado, sem ser visto. Entra de mansinho, devagarinho, tira tudo do lugar e dorme na sua cama. Vem em forma de gente, com sorriso largo e mãos de ilusionista, daquelas que te acariciam sem te tocar, que te dão arrepios e prazeres incógnitos; é ele, é sempre ele. Ele é quem vela o teu sono, quem com olhos grandes e alegres te olha lá no fundo, na alma, e repentinamente sabe o que você quer, pois compartilha dos mesmos desejos. Ele te intimida, te pressiona e te despe, mas não te fere, porque é ágil e se esquiva. Teus olhos nunca encontram os seus; é tímido, discreto, gosta de agir escondido, quase dissimulado, e toma conta da tua vida, dos teus pensamentos, do teu corpo. O dia inteiro, todos os dias, ele te faz implorar por algo que você não sabe o que é — ele não te disse, embora sussurrasse no teu ouvido todos os sons que um dia você já sonhara em ouvir. Mas ainda assim não te contou o que estava por vir, porque não era necessário, não mais.
Existem coisas que não precisam ter um nome, o acaso é uma delas.